PANínsula, poesia, 80 páginas
SÉRGIO GERÔNIMO

Existe Poesia. Existem momentos de Poesia.

Você já viveu a experiência de ser lida por um poema? Só os que já viveram esse momento poderão me entender. Fui ao lançamento de PANínsula – poesia (OFICINA Editores), de Sérgio Gerônimo e iniciei o recital homenageando meu amigo, meu irmão, meu companheiro, interpretando o poema que dá título ao livro: “PANínsula”. Poesia dele “me leu”. Só os grandes poemas são capazes de LER os intérpretes. Eu “fui lida”. Se você quiser vivenciar esta experiência... Faça o que eu fiz: leia PANínsula, de Sérgio Gerônimo: uma apresentação primorosa, os poemas são um somatório de sensibilidade de alma, conhecimento racional e explosão de emoções. Entender o livro pode parecer, em um primeiro momento difícil, mas, se você ousar mergulhar em sua essência acabará como eu, sendo lido pelo poema e sentirá o ritmo, força e beleza de PANínsula. O resto? É conversa!

Glenda Maier, poeta, editora, cronista, outubro de 2002, Rio de Janeiro/RJ, Brasil

PANínsula


Este céu azul de inverno-primavera abril
anil riscado pelo sutil branco do pássaro
a jato
ele já foi só azul
e agora, como dantes, deito meu leito
em vinhas, mais vinhas que venham vinho
escorrendo sono pelas colinas de minhas coxas
colchas ondulantes em línguas latinas
que nesta panínsula parecem ser seculares
PANínsula sim! pois ela é minha
ulisses, luso, baco-dioniso
portucalenses e castelães
galegos, madrilenos, andaluzes e catalães
não se assustem!
esta é minha intrépida família
criam rochedos, encantam árvores
escondem labirintos de paixões
e quantas paixões nesta panínsula
PANínsula sim! pois ela é minha
é fecunda, inteligente, instigadora
de risos vira-zarzuelas alegres
a choros santo ofício terríveis
sombras e luzes
naturalmente em noite e dia
e assim freqüento há eras travestido de eros
as arenas em flauta de sete tubos excitados
a incitarem castanholas, rendas e olhares
seios arfantes, leques de peitos couraças
malícias, malícias, malícias
religiosamente ávilas e ávidas
teresas e marias da panínsula
PANínsula sim! pois ela é minha
dizem ser eu guerreiro olímpico
de face mortal e terreno
contraceno romanos, gregos, sarracenos
celtas, visigodos – exércitos em procissão
minhas ordens desfiguram flancos
encantam minhas têmporas chifres
são raios do sol – força e pura invenção
perdão, este trejeito da minha tez
fez vivacidade cantar em litorais
reentrâncias, rias e alturas na panínsula
PANínsula sim! pois ela é minha
às vezes cobram-me ser cabra,
mas sou rebanho e pastores
urbana história também me queiram como sou
tenho via-láctea no estômago
de rios, laranjas, sal e pescado
não disfarço em pecado meu umbigo
nem planícies e planaltos que correm nos meus cascos
que movem diana amores, diana de éfeso
diana de évora, já nem sei mais
amores possíveis e passíveis de improbabilidades
imprevistos por certa panínsula
PANínsula sim! pois ela é minha
sonho pirineus e arrábidas
degusto guadarramas e estrelas
perfumo atlânticos e mediterrâneos
estreito-me
expando-me
sou eixo seixo assim
faunos, sátiros, silenos
frades, santos, deuses
danço, gargalho, enterneço
choro granada às cinco horas
por ora tudo vale a pena
nesta minha alma de menino
pense nisto pessoa
sou mais fantástico do que divino
surreal romântico poeta
aqui na panísula
PANínsula sim! pois ela é minha

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